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Ela era quase uma escritora. Ele era quase um pescador.
Ela trabalhava em uma grande editora de São Paulo, revisando minuciosamente cada frase, cada detalhe ortográfico, cada ponto e vírgula; estrutura do texto; clareza e coerência das idéias.
Ele fazia um pouquinho de tudo na litorânea região de Ubatuba, onde nasceu. Levava os turistas para se aventurarem pelas trilhas em busca das maravilhosas cachoeiras, ajudava no carregamento das embarcações marinhas e tecia redes de pesca junto aos moradores da comunidade local.
O encontro aconteceu em uma linda noite de lua cheia.
Enfim, ela conseguiu uma trégua no trabalho e reservou uma semana no litoral para tentar esquecer os problemas que a atormentavam. Aos 37 anos, acumulava um casamento mal sucedido e inúmeras traições, a última resultou na primeira paternidade de seu marido, agora ex, e o início de uma família que ela não fazia parte.
Após 27 anos casado, aos 46 a vida dele estava tomando outro rumo em razão do fim de um amor adolescente que lhe dera sete filhos e quinze netos. Os motivos das desavenças do casal caiçara eram, sem dúvida, as “tentações” e “ilusões” vividas com as turistas. Sua pele bronzeada, seus cabelos levemente queimados pelo sol, seu sorriso sedutor e um ar de quem conhecia tudo por aquelas bandas, surtiam nelas a incontrolável vontade de experimentar o desconhecido. Mas dessa vez, a turista não o abandonou...
A rotina do casal era tentar conciliar as diferenças. A sensação era de um doce amargo, indefinível, às vezes mel, outras fel.
Ela o presenteava com livros dos mais variados estilos: romance, ficção, aventura. Livros que contavam as histórias do mundo e pudessem, em pouco tempo, diminuir suas diferenças culturais e intelectuais, aproximando seus mundos.
Ele tentava despertar nela a simplicidade e o conhecimento de vida, falando sobre a posição das estrelas, se chove ou faz sol, a vegetação das montanhas, o impacto ambiental com a chegada do turismo e as dificuldades dos pescadores após o advento da tecnologia.
A vida dela na grande cidade era movimentada. O trabalho tomava todo o seu dia, parte da noite e do final de semana, por isso, era ele quem, na maioria das vezes, invadia o universo urbano para estar ao lado dela, e ela, adorava quando podia tê-lo em seu mundo, do seu jeito...
As diferenças entre o casal eram gritantes, porém se anulavam quando estavam a sós, e desta forma o relacionamento foi acontecendo, sempre com jantar a dois e filmes assistidos em casa. Se saíam, em raros momentos, era para pegar um cinema, mas logo estavam de volta. Para eles, a reclusão não era uma forma de preconceito. O que eles queriam era apenas viver esse amor sem julgamentos.
Durante dez anos o casal inventou sua fórmula de felicidade e viveu intensamente essa receita, até que um dia os ingredientes pareciam não ser suficientes para um prato saboroso.
Ela começou a sentir falta de algo que não sabia ao certo o que era, mas como não era mulher de ver a vida passar, resolveu sair à procura. Aos poucos foi sentindo a necessidade de retornar ao seu mundo, ao seu meio, aos seus amigos e em pouco tempo já estava de volta às saídas com os colegas de trabalho após o expediente, às programações culturais, aos eventos de clientes da editora, às baladas com amigas aos finais de semana, às viagens, aos jantares, às reuniões de negócios...
E ele, em sua sábia e simples maneira de enxergar a vida, teve a certeza de que ela, aos 47 anos, estava curada dos motivos que os uniram: as feridas causadas pela vida urbana, os estresses da dedicação ao trabalho, as desilusões com os colegas e os amores egoístas e superficiais.
Ela estava curada e desejava sua vida de volta!
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