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Neste texto eu deveria continuar falando dos encantos de Minas Gerais, como prometi na última crônica e não me esqueci. Vou voltar a tocar neles proximamente.
Porém, temos hoje o Dia Internacional da Mulher, que acho que merece ser abordado neste, que é seu momento oportuno. Na semana passada todos aqui pudemos ler a lúcida crônica da Soraya, que nos alertou e relembrou da situação infeliz de morrer, no Brasil, a cada quinze segundos, uma mulher por agressão. Sabemos que o próprio Dia Internacional da Mulher foi instituído por outras agressões cometidas contra mulheres, mas desta vez, nos Estados Unidos.
Atendendo ao seu apelo, Soraya, a crônica de hoje não tem o intento de ser uma homenagem, mas acho que é mais uma espécie de tapa com luvas de pelica nas caras desses trogloditas estúpidos que trazem ao nosso país essa realidade que tanto nos constrange e envergonha. Quero hoje relembrar algumas mulheres que, em suas vidas, fizeram e significaram muito mais no mundo do que esses idiotas que se julgam homens e são inferiores a animais, já que nem mesmo no reino deles se tem esse tipo de conduta. Vamos lá:
Safo – nascida entre 630 e 612 a.C, desconhece-se a data de sua morte, Grécia: poetisa, foi considerada por seus contemporâneos como a décima musa. Devido ao conteúdo erótico de seus escritos, teve a obra sensurada pelos monges copistas medievais, só tendo chegado até nós esparsos fragmentos de seus poemas;
Eloísa de Paráclito – (1101-1164), França: aluna e amante do filósofo Pedro Abelardo, ao ter a gravidez descoberta, tem a castração do amado ordenada pelo tio. Sua correspondência com Abelardo se estende por toda a vida. Filósofa, o debate ético, a doutrina cristã, a ontologia e a argumentação estão presentes em sua obra;
Santa Teresa D’ávila – (1515-1582), Espanha: grande leitora e mística, é considerada uma das figuras mais atuantes na contra-reforma católica, por sua destacada atividade religiosa;
Anita Garibaldi – (1821-1849), Brasil: no contexto da Revolução Farroupilha (1835-1845), liga-se a Giuseppe Garibaldi, lutando a seu lado nos combates no Brasil e pela unificação italiana;
Chiquinha Gonzaga – (1847-1935), Brasil: compositora, pianista e regente, destaca-se pelas composições no choro, ritmo que, por suas mãos e de outros compositores cariocas, se criaria e consagraria no Brasil. Torna-se a primeira compositora popular do país;
Marie Curie – (1867-1934), Polônia: dedica sua vida aos estudos acerca do minério rádio, sem os quais não se poderia conceber hoje a utilização da radioterapia e suas possibilidades de tratamento de severos males como cânceres;
Helen Keller – (1880-1968), Estados Unidos da América: aos dezoito meses de idade, acometida pelo que se supõe hoje ser escarlatina, ficou surda-cega. Apesar disso, tornou-se uma célebre escritora, filósofa e conferencista, além de ter trabalhado durante toda a vida pelo bem-estar dos portadores de necessidades especiais ao redor do mundo;
Edith Stein – (1891-1942), Prússia: judia alemã, discípula de Husserl, converte-se ao cristianismo. Sob o jugo nazista, é levada de seu convento na Holanda para o campo de concentração de Auschwitz e lá executada. O Papa João Paulo II a definia como: “filósofa, judia, religiosa, mártir”;
Olga Benário – (1908-1942), Alemanha: militante comunista de origem judaica, veio para o Brasil destacada como guarda-costas de Luís Carlos Prestes e foi deportada para a Alemanha por Getúlio Vargas, tendo sido lá executada pelo regime nazista;
Shu Wen – nascida na China em 1932, não se sabe se ainda está viva: esta chinesa anônima teve a vida narrada pela escritora e jornalista chinesa Xinran Xue no livro Enterro Celestial e é ainda procurada por sua biógrafa. Médica, Wen, à procura do marido desaparecido há décadas, estabelece com o Tibet uma relação de fusão, de união que a China como nação jamais foi capaz de estabelecer;
Zilda Arns – (1934-2010), Brasil: médica, sanitarista, funda e coordena a Pastoral da Criança, salvando muitos pequenos da desnutrição, granjeando com seu trabalho reconhecimento nacional e mundial. Teve a vida seifada pelo último terremoto ocorrido no Haiti e espera-se a continuidade de seus indispensáveis trabalhos por parte de seus admiradores e colaboradores;
Como se vê, ainda que tenhamos de suportar com toda a reprovação possível a presença, na maior parte das vezes impune, desses covardes agressores que assombram as mulheres, a atuação delas no mundo não é nula e, oxalá que um dia seja mais percebida e respeitada. Até lá, infelizmente, é forçoso conviver em paralelo com seu subjulgamento por seus pseudo-companheiros. No entanto, conviver não significa aceitar nem tolerar a imagem da mulher frágil ou da mulher-objeto. Esta é, Soraya, a minha forma de demonstrar apoio ao seu desabafo e ao seu manifesto. A todas as mulheres agredidas, violentadas, mortas, a solidariedade de mais uma mulher. Àquelas que agem para firmar e afirmar sua presença no mundo, não parem! E aquelas que necessitem, denunciem! |