Quem Escreveu Este Artigo

yara helena de ANDRADE

formada em Letras - português - inglês pela UNIMEP, sou mestra em educação pela UNISAL-Americana. Da minha área de atuação, as questões de literatura, arte, estética, são as que mais me despertam, embora eu me interesse pelo campo das letras de modo geral. Gosto de ler, de música - ouvir e tocar...
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No mundo, o que é ser mulher?

08/03/2010 - 18:50:59


Neste texto eu deveria continuar falando dos encantos de Minas Gerais, como prometi na última crônica e não me esqueci. Vou voltar a tocar neles proximamente.

Porém, temos hoje o Dia Internacional da Mulher, que acho que merece ser abordado neste, que é seu momento oportuno. Na semana passada todos aqui pudemos ler a lúcida crônica da Soraya, que nos alertou e relembrou da situação infeliz de morrer, no Brasil, a cada quinze segundos, uma mulher por agressão. Sabemos que o próprio Dia Internacional da Mulher foi instituído por outras agressões cometidas contra mulheres, mas desta vez, nos Estados Unidos.

Atendendo ao seu apelo, Soraya, a crônica de hoje não tem o intento de ser uma homenagem, mas acho que é mais uma espécie de tapa com luvas de pelica nas caras desses trogloditas estúpidos que trazem ao nosso país essa realidade que tanto nos constrange e envergonha. Quero hoje relembrar algumas mulheres que, em suas vidas, fizeram e significaram muito mais no mundo do que esses idiotas que se julgam homens e são inferiores a animais, já que nem mesmo no reino deles se tem esse tipo de conduta. Vamos lá:

Safo – nascida entre 630 e 612 a.C, desconhece-se a data de sua morte, Grécia: poetisa, foi considerada por seus contemporâneos como a décima musa. Devido ao conteúdo erótico de seus escritos, teve a obra sensurada pelos monges copistas medievais, só tendo chegado até nós esparsos fragmentos de seus poemas;

Eloísa de Paráclito – (1101-1164), França: aluna e amante do filósofo Pedro Abelardo, ao ter a gravidez descoberta, tem a castração do amado ordenada pelo tio. Sua correspondência com Abelardo se estende por toda a vida. Filósofa, o debate ético, a doutrina cristã, a ontologia e a argumentação estão presentes em sua obra;

Santa Teresa D’ávila – (1515-1582), Espanha: grande leitora e mística, é considerada uma das figuras mais atuantes na contra-reforma católica, por sua destacada atividade religiosa;

Anita Garibaldi – (1821-1849), Brasil: no contexto da Revolução Farroupilha (1835-1845), liga-se a Giuseppe Garibaldi, lutando a seu lado nos combates no Brasil e pela unificação italiana;

Chiquinha Gonzaga – (1847-1935), Brasil: compositora, pianista e regente, destaca-se pelas composições no choro, ritmo que, por suas mãos e de outros compositores cariocas, se criaria e consagraria no Brasil. Torna-se a primeira compositora popular do país;

Marie Curie – (1867-1934), Polônia: dedica sua vida aos estudos acerca do minério rádio, sem os quais não se poderia conceber hoje a utilização da radioterapia e suas possibilidades de tratamento de severos males como cânceres;

Helen Keller – (1880-1968), Estados Unidos da América: aos dezoito meses de idade, acometida pelo que se supõe hoje ser escarlatina, ficou surda-cega. Apesar disso, tornou-se uma célebre escritora, filósofa e conferencista, além de ter trabalhado durante toda a vida pelo bem-estar dos portadores de necessidades especiais ao redor do mundo;

Edith Stein – (1891-1942), Prússia: judia alemã, discípula de Husserl, converte-se ao cristianismo. Sob o jugo nazista, é levada de seu convento na Holanda para o campo de concentração de Auschwitz e lá executada. O Papa João Paulo II a definia como: “filósofa, judia, religiosa, mártir”;

Olga Benário – (1908-1942), Alemanha: militante comunista de origem judaica, veio para o Brasil destacada como guarda-costas de Luís Carlos Prestes e foi deportada para a Alemanha por Getúlio Vargas, tendo sido lá executada pelo regime nazista;

Shu Wen – nascida na China em 1932, não se sabe se ainda está viva: esta chinesa anônima teve a vida narrada pela escritora e jornalista chinesa Xinran Xue no livro Enterro Celestial e é ainda procurada por sua biógrafa. Médica, Wen, à procura do marido desaparecido há décadas, estabelece com o Tibet uma relação de fusão, de união que a China como nação jamais foi capaz de estabelecer;

Zilda Arns – (1934-2010), Brasil: médica, sanitarista, funda e coordena a Pastoral da Criança, salvando muitos pequenos da desnutrição, granjeando com seu trabalho reconhecimento nacional e mundial. Teve a vida seifada pelo último terremoto ocorrido no Haiti e espera-se a continuidade de seus indispensáveis trabalhos por parte de seus admiradores e colaboradores;

Como se vê, ainda que tenhamos de suportar com toda a reprovação possível a presença, na maior parte das vezes impune, desses covardes agressores que assombram as mulheres, a atuação delas no mundo não é nula e, oxalá que um dia seja mais percebida e respeitada. Até lá, infelizmente, é forçoso conviver em paralelo com seu subjulgamento por seus pseudo-companheiros. No entanto, conviver não significa aceitar nem tolerar a imagem da mulher frágil ou da mulher-objeto. Esta é, Soraya, a minha forma de demonstrar apoio ao seu desabafo e ao seu manifesto. A todas as mulheres agredidas, violentadas, mortas, a solidariedade de mais uma mulher. Àquelas que agem para firmar e afirmar sua presença no mundo, não parem! E aquelas que necessitem, denunciem!


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