Quem Escreveu Este Artigo

fábio SHIRAGA

está professor de inglês e wannabe jornalista cultural. Nasceu em Sampa, ama Londres e mora em Limeira. Lennon é seu beatle favorito. Bebe cerveja e lê Bukowski. É fascinado pela cultura pop. Lê mais blogs que livros e se culpa por isso. Não sabe se expressar em poucas palavras, mas um dia ele aprende. Faz terapia no Blog há mais de 5 anos.
Crônica de duas versões para uma mesma história

17/02/2010 - 07:40:09


Ligeiramente grávidos

A versão da mãe, Fabiana Fioretti

A ansiedade e a angustia me consumiam desde às 6h30.

O Fábio dormia tranqüilamente ao meu lado na cama. Fiquei olhando as linhas do seu rosto, acompanhando sua respiração e imaginando como ele reagiria.

Às nove ele abriu olhos, me desejou bom dia e com um sorriso me perguntou:

Fez xixi?
Fiz - respondi sucintamente.
E aí? – sentou-se na cama ao me inquirir.
Senti-me desconcertada. Que espécie de questionamento era aquele? Palavras tão ínfimas para questionar algo tão grandioso...

E aí nada. – foi minha resposta automática.
Ele suspirou algo entre aliviado e inquieto e reinqueriu:

Então deu negativo?
Não. Deu positivo – respondi cabisbaixa.
Deixa eu ver.
Levantei e peguei o exame de farmácia que eu havia guardado na bolsa.

Expliquei que, de acordo com as instruções, as duas listrinhas rosa significavam positivo.

Ele ficou olhando para o tubinho com o olhar perdido, depois me beijou nos lábios e voltou a deitar. Disse que se sentia tonto.

Eu ri. Nervosamente ri.

Estávamos em Serra Negra, na casa da mãe dele aproveitando o feriadão.

Ele foi ficando pálido.

Naquele momento, percebi a fragilidade dele e inspirando longamente, enchi-me de forças para iniciar aquela que julguei seria a conversa mais séria e densa que teríamos.

Não se preocupe. Terei esse filho sozinha. Você tem seus planos, seus sonhos e metas e eu já abdiquei dos meus antes, posso muito bem protela-los mais uma vez. Sua vida não precisa mudar em nada.
Naquele momento descobri que a criatura ao meu lado era um homem e não um menino. Ele chorou. Reafirmou seu amor por mim e pelo bebê e disse que não existia aquilo de ele ou eu. Que éramos nós. Que aquele seria nosso filho. Que faríamos nossos planos, nossas metas. Que aquela era a nossa vida.

Um beijo selou nosso compromisso de nos tornarmos um.

Eu estava em pânico. Ele me confortava, claro, mas o medo de decepcionar meus pais mais uma vez me consumia.

Por decisão-imposição minha, combinamos que só contaríamos depois do Natal.

Passei por uma consulta médica naquela semana e meu ginecologista confirmou a gravidez, mas, por garantia, pediu o exame de sangue.

Decidi protelar o máximo possível e só realizar o teste para contar aos nossos pais. Faltavam uns 20 dias pro Natal, mas o Fábio já estava tendo crises de ansiedade e perdendo o sono.

Comecei a ter enjôos e ele, tomando as rédeas da situação me comunicou:

Sexta vamos contar para todo mundo da nossa gravidez.
Nossa Gravidez. Aquela idéia de que ele estava grávido junto comigo me entorpeceu e concordei com sua decisão porque não tinha argumentos, nem vontade, para discordar.

E assim se fez.

O Fábio tem uma versão um tantinho mais romantizada e dramática que a minha para o início da nossa história familiar, mas, em sumas palavras, o temor, a emoção, a alegria e o torpor foram os mesmos.



A versão do pai, Fábio Shiraga

Eram nove horas da manhã de um domingo da primeira quinzena de novembro. Abri os olhos, olhei para o lado; Fabiana estava acordada, me olhando. Perguntei: fez xixi?

Ela respondeu que sim. Às seis e meia. E o que foi que deu?

Nada, ela disse. Não deu nada? Perguntei de volta. Ela fez um muxoxo.

Deu positivo. Ah é!? Deixa eu ver!

Ela me passou o exame de farmácia; explicou que se aparecessem dois risquinhos significava que ela estava grávida. Limpei os olhos e olhei novamente para aqueles dois riscos vermelhos ali naquele palitinho que compramos na farmácia no dia anterior.

Olhei para a minha namorada que parecia pálida, mas estava mais linda do que nunca. Dei-lhe um beijo e tive que deitar novamente porque minha cabeça parecia girar. Nunca senti aquilo antes. Talvez se comparasse com a ressaca mais forte que tive na vida; mas não é a mesma coisa. Existe uma palavra que aprendi estes dias: inexprimível. A palavra é ótima, e explica o que não se pode dizer.

Estávamos na casa da minha mãe, em Serra Negra, era uma manhã agradável, mas o mundo ao meu redor não existia naquele momento, o mundo todo tinha desabado na minha cabeça. Um filho! Meu Deus! Eu vou ser pai, vou ter um filho! Só então entendi que aquela sensação do mundo girar era toda uma responsabilidade que caia sobre mim, naquele momento em que descobrimos, via dois riscos vermelhos em um palitinho de farmácia.

A Fá quis se mostrar mais forte que eu. Falou que assumiria o bebê e que eu poderia seguir com os meus planos de fazer a faculdade, viajar depois, trabalhar com música (continuar minha vida de adolescente, acho que foi isso o que ela quis dizer). Obviamente eu não aceitei sua proposta indecorosa. Escuta aqui, eu te amo e agora estou mais feliz ainda de saber que vamos ter um filho! É tudo o que eu mais quero! Tudo bem, eu também quero fazer a faculdade, viajar e trabalhar com música, mas a partir daquele momento em que vi os dois riscos vermelhos, a minha vida mudou como nunca antes havia acontecido. Eu estava feliz e apavorado.

Discutimos por duas horas antes de sentarmos para o café da manhã. Sim, já era quase a hora do almoço, mas sentamos e conversamos com minha mãe como se não houvesse dois riscos vermelhos em um palito guardado na bolsa da Fabiana. Fizemos um acordo de só contar a novidade depois do Natal.

O dia passou tenso. Voltamos para Limeira, meu irmão no banco de trás do carro conversava e nós nervosos, vez ou outra ela suspirava. As horas passavam pesadamente. O bebê jamais foi indesejado, mas veio inesperadamente e a gravidez e tudo o que ela traz nos deixava assustados. Passamos pela primeira semana muito unidos. Era como se fossemos a Fá, o bebê, eu e do outro lado estivesse todo o resto do mundo. Mas eu precisava compartilhar a novidade.

Algumas semanas depois (não sei precisar quantos dias ou quantas semanas se passaram) resolvemos que precisávamos contar para os nossos pais. E foi aí que eu me senti grávido, quando pude chorar abraçado com nossos pais, após contar que a família estaria maior, em breve.


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